
Herbert Eustáquio de Carvalho (Herbert Daniel) nasceu em 14 de dezembro de 1946, Daniel é um dos codinomes da vida clandestina que acaba utilizando como nome próprio. É ele mesmo quem se apresenta.
"Meu nome é Herbert. Este ganhei no registro, que me indicava brasileiro, branco e sexo masculino. Depois, mais tarde, passei a ser conhecido como Daniel. Este ganhei como nome-de-guerra, no final dos anos sessenta, quando participei da luta armada, que me registrava entre uma minoria que queria combater a ditadura com armas, porque tínhamos então certas idéias (nem todas tão certas) de política e liberdade. Vivi anos clandestino no país. Depois da derrota, saí para o exílio, donde voltei em 81. Pensei muito na derrota, principalmente porque vivi anos duplamente clandestino: uma das clandestinidades me registrava numa minoria que parecia afrontar o sexo com que fui registrado. Ser homossexual, o que é isto? Na época da guerrilha, sexo era assunto "pessoal", não era "político". A separação entre pessoal e político, entre público e privado, é uma das bases da ética de toda política conservadora. A esquerda, adotando essa ética conservadora, pensando de uma certa forma o poder, pensou um corpo abstrato, "socialista", onde o sexo era uma tecnologia a serviço da procriação, ou só procriação de um prazer conformado a preconceitos".
Mineiro, Herbert Daniel começa o curso de medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, no final de 1964. A formação na área médica e a leitura crítica sobre a racionalidade médica serão resgatadas no debate que se estabelece com o advento da pandemia da aids. Na mesma universidade, participa do Movimento Estudantil, tendo sido Vice-Presidente do Diretório Central dos Estudantes - DCE - e também escreve peças para o teatro estudantil. Em Belo Horizonte, trabalha como crítico de cinema no rádio. Empolgado depois da leitura do Manifesto Comunista, espera ansiosamente ser recrutado para a luta:
"Opção revolucionária. Mas pra meu azar nenhuma proposta de ação prática me vinha dos militantes que conhecia. Muito ocupados, e poucos eram então, não se ocupavam com meu recrutamento e eu esperava que. Me dizia: merda, não devo ser bom candidato a revolucionário, já que não querem me engajar. Duvidava: vai ver que sou inapto; às vezes, é que sou homossexual e eles não aceitam gente assim. Mas: não dou pinta, sou enrustido, será que desconfiam e… ?"
Ao se envolver cada vez mais com a ação política, depara-se com perguntas que se são 'inquestionáveis' para alguns, são também conflituosas para outros, como: O que deve ser considerado mais ou menos importante como bandeira de luta das Organizações? Quais temas devem ser alvos de preocupação dos revolucionários? Como deve ser e agir um revolucionário? Em que medida as questões individuais interessam à revolução? Em que momento? Herbert Daniel fez a escolha pela revolução através da luta armada. Pode-se dizer que tenha assumido a 'causa' no sentido mais altruísta do termo, disposto a morrer por um mundo melhor ainda que para as próximas gerações. Entretanto, o diálogo entre o visível e o invisível no que se refere à homossexualidade é um questionamento constante na sua vida, gerando reflexões em sintonia com a atuação política.
"Meus problemas pequeno-burgueses me preocupavam, como tantos empecilhos que eu tivesse para poder me tornar um bom revolucionário. Entre eles a sexualidade, mais explicitamente, a homossexualidade. Desde que comecei a militar, senti que tinha uma opção a fazer: ou eu levaria uma vida sexual regular - e transtornada, secreta e absurda, isto é, puramente "pequeno-burguesa", para não dizer "reacionária", ou então faria a revolução. Eu queria fazer a revolução. Conclusão: deveria "esquecer" minha sexualidade".
Em 1967, Herbert Daniel entra na política. Militante da Política Operária - Polop -, Comandos de Libertação Nacional - Colina -, Vanguarda Armada Revolucionária - Var-Palmares - e Vanguarda Popular Revolucionária - VPR -, nesta ordem, vive clandestino durante seis anos, entre 1969 e 1974, sem nunca ter sido preso. A partir do final de janeiro de 1969, inicia sua vida clandestina sob a inspiração de Che Guevara. Opta pela luta armada e faz "sua primeira experiência de guerrilha urbana no início do ano".
Durante a clandestinidade acompanha pelos jornais notícias de torturas e fotos de companheiros mortos e a sua própria foto divulgada como um guerrilheiro procurado pela polícia. Contudo, mesmo a morte é vista como uma bandeira de luta. Nesse sentido, a morte de Che Guevara é para os revolucionários, de certa forma, uma vitória, uma justificativa. "Foi uma morte plena de esperança". Ainda em 1969, depois de ter vindo para o Rio de Janeiro, parte para o Vale do Ribeira, área de treinamento da guerrilha rural, o grande objetivo na época. Em abril de 1970, o Exército cerca o Vale do Ribeira, mas Daniel consegue escapar e volta ao Rio de Janeiro onde participa do sequestro do embaixador da Alemanha. No final do mesmo ano, novo sequestro, dessa vez é o embaixador suíço.
O relato de Herbert Daniel sobre os partidos de esquerda, especialmente a esquerda armada, é bastante duro. Critica-os por se verem como o 'Instrumento' que poderá conduzir as massas, quando na verdade estão distantes delas e só criam expectativas. Afirma que têm "…a idéia messiânica de que a massa não se move sem a direção duma vanguarda. O que é perfeitamente absurdo". Outra crítica refere-se ao fato da organização política ser vista como uma atividade preparatória ao político, gerando "a incompreensão do tempo político, a criação artificial de um "momento de espera". Sob seu ponto de vista, nos partidos não se fala em continuidades, mas sobre a necessidade de 'seguir até o fim.'
No final de 1971, Herbert Daniel conhece Cláudio Mesquita que vem a ser seu companheiro durante vinte anos. Na ocasião, Cláudio o esconde da polícia em sua casa, mas o esconderijo acaba sendo localizado e a partir de então passam a fugir juntos. Em 1974, saem do Brasil pela fronteira argentina, depois vão para a França. O primeiro contato não agrada e resolvem ir para Portugal, onde Daniel trabalha como jornalista numa revista feminina. Em 1976 voltam a Paris, depois da morte num acidente de moto de um companheiro também exilado. Mais seis anos em suspenso, entre 1974 e 1981, dessa vez no exílio.
Paris é para Herbert Daniel uma experiência de rupturas. Ele resolve não fazer um grupo de estudos sobre o marxismo, prática comum na época, mas olhar para si. Neste período, lê muitos romances policiais e de ficção.
"Não me interessava fazer "política" assim. Fechar-se no exílio num círculo de vícios da mistificação não resolveria minhas confusas artimanhas. Estava decidido a encontrar soluções para certos problemas que a coerência me impede de chamar pessoais, mas a prudência me aconselha a não chamar políticos. Sendo, porém, políticos, pessoais e intransferíveis, pensei dar um salto, uma fuga, um corte. Resolvi que precisava me resolver e às minhas dúvidas. O homossexualismo era ainda uma pendência. Comecei - no exílio - a conhecê-lo, e suas regras. Ferozes. O cerco. O círculo. Desde sempre me dava conta duma armadilha. E me dizia: se escapei de uma seita, não foi para cair num gueto."
Herbert Daniel trabalha na mais luxuosa sauna gay de Paris, o que lhe possibilita o contato com um mundo novo repleto de códigos e mensagens desconhecidos. Não consegue se manter por muito tempo nesta sauna, devido à rede de intrigas que percebe entre os empregados, que procuram impressionar os patrões, e pela exploração sofrida por serem majoritariamente imigrantes. Apesar da homossexualidade trazer um fator agregativo, marcado pela identidade ou pelo estigma, as desigualdades de classe aparecem. Os entrecruzamentos entre preconceitos e desigualdades sociais estão sempre presentes para Herbert Daniel. A busca por resolver suas dúvidas o leva ao reconhecimento da homossexualidade e simultaneamente ao estranhamento com o mundo gay e o incômodo com o gueto.
"O gueto homossexual hoje em dia, nos países desenvolvidos, é antes de tudo um conjunto de comércios. Bares, cinemas, restaurantes (pergunto: por que restaurantes especializados? Bichas, a não ser umas às outras, comem diferente?)… Enfim, todas as atrações possíveis do consumo se especializam para homossexuais: da livraria à loja de periquitos, passando pela hóstia consagrada. E tudo aí é mais caro. Mais caro porque "especializado": paga-se a instauração da cidadania homossexual. E a defesa dos interesses desse mercado não deixa de assumir formas políticas curiosas. Passa, sempre, pela forma de "defesa de interesses homossexuais."
Apesar de estar afastado das discussões políticas em Paris, é convidado a discutir sobre questões ligadas às minorias, que passam a ter visibilidade no momento, como a ecologia e a homossexualidade. Assim, aproxima-se da Comissão de Cultura do Comitê Brasil pela Anistia - CBA -, formado por pessoas consideradas mais lights, que propõem um debate a respeito. "Proposta indecorosa" foi o título do panfleto de divulgação do debate sobre "Homossexualidade e Política", encaminhado por esta Comissão, em 1979, em Paris. Há muita polêmica, pois para alguns esta não passa de uma questão "absolutamente secundária". Depois de muita discussão, a proposta é retirada, mas o evento acontece como uma reunião pública na Casa do Brasil, na Cidade Universitária.
É durante o relato desse episódio que Herbert Daniel menciona um outro tipo de exílio, o imposto pelo silêncio: "O silêncio é a forma do discurso duma certa parcela da esquerda sobre a homossexualidade. É uma forma de exilar os homossexuais". O silêncio imposto pela censura, seja a da ditadura, seja a dos preconceitos, interiorizados e propagados nas relações intersubjetivas, pode funcionar como elemento chave nos vários debates que Herbert Daniel provoca. O silêncio é expresso nos seus vários escritos, através das experiências pessoais daqueles que viveram/vivem sob o cenário da ditadura ou da pandemia da aids. Um silêncio marcado por uma imposição externa, no primeiro caso, ou por uma auto-repressão e culpabilização pela homossexualidade e a aids. A ditadura e a aids aparecem como conjunturas históricas, mas a auto-reflexão sobre a homossexualidade atravessa os dois momentos. Ainda que a coerção externa seja mais forte com a ditadura, a violência simbólica está presente e não é menos importante, ao contrário, parece ser o centro da atenção do autor. Nesse sentido, o exílio se confunde com o silêncio.
No período do referido debate, em Paris, Herbert Daniel produz com Cláudio Mesquita alguns fascículos datilografados chamados "Notas Marginais", posteriormente sintetizados e publicados, em 1983, em "Jacarés e Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade." O último capítulo do livro - "A síndrome do preconceito" - é um dos primeiros artigos sobre a aids publicado no Brasil. A partir daí começa a refletir teoricamente sobre a homossexualidade, que é vista como um assunto secundário por muitos, ou sugerida como tema para um possível núcleo gay dentro do partido político. Herbert Daniel discorda, pois considera que o debate não deve ser apenas entre os gays, mas mais amplo. Entendido como um problema mais geral, de cidadania, de respeito às diferenças, um tema de debate público por se tratar de um direito individual.
Em 1979, a anistia possibilita a volta de vários exilados, mas Herbert Daniel ainda não pode voltar ao Brasil. Sua pena só será prescrita em maio de 1981.
"Ah, nem, que não, que não, que não escrevo assim: "foi". Nem vê, num vou comprometer-me em relatórios. Não pode, ainda não pode, que é só 1981 e tem aí seja um general que lê, seja um esseenii que cataloga, um punho que aguarda, que não abriu. Aguardo diante dos portos que tenho fechados, neste resto de exílio que alonga ainda mais uma certa solidão que sempre me pareceu destinação inevitável e temida. Um dos últimos no exílio, já quase nem se fala em anistia - e ela nem houve, estou aqui que não me deixo mentir."
Decide-se a escrever uma carta que acaba restrita ao Congresso do Comitê Brasil pela Anistia e não gera repercussão. Na ocasião, alguns alegam desmobilização, outros falam do seu tom pessoal na carta e ainda, que exilado não está mais na moda. Daniel resolve escrever uma segunda carta, desta vez dirigida à mãe do Henfil e este a publica. Posteriormente, o jornal Lampião de Esquina - jornal gay publicado entre 1979 e 1981 - a publica na íntegra. Na apresentação da carta, o jornal relata um incidente no Congresso do CBA, quando um dos delegados presentes se opôs a leitura da carta enviada por Herbert Daniel por ele ser "simplesmente uma bicha".
Em maio de 1981, conclui o livro "Passagem para o próximo sonho", em Paris, que procura ser um livro menos de memórias e mais de lembranças, como prefere dizer. Através das lembranças traça sua trajetória política e os doze anos vividos entre a clandestinidade e o exílio. O livro é publicado no Brasil em 1982, reunindo as discussões sobre a guerrilha àquelas sobre a homossexualidade.
Enfim, o último exilado retorna ao Brasil em 1981. Chega trazendo discussões sobre cultura, ecologia, minorias e, evidentemente, homossexualidade. O momento de maior visibilidade do Grupo Somos/SP havia passado e o jornal Lampião não existia mais. No Rio de Janeiro, o Grupo Somos/RJ ainda mantinha algumas reuniões. Apesar de Herbert Daniel não ser membro de nenhum grupo gay, sempre manteve o diálogo com os ativistas. Às vezes reunindo-se com pessoas do Somos/RJ na sua própria casa. O lançamento de "Passagem para o próximo sonho" torna-se um acontecimento importante para aglutinar pessoas que transitam na política e no movimento gay. Um outro momento é o processo da campanha política, quando Daniel começa a romper com a herança da guerrilha, investindo na democratização do Estado e mais adiante lançando-se ao parlamento. Na volta do exílio começa a participar do Partido dos Trabalhadores, que, em 1982, lança a candidatura de Lizst Vieira trazendo essas discussões para a política. A amizade entre Lizst Vieira, Herbert Daniel e Cláudio Mesquita data do período do exílio. Herbert Daniel participa ativamente da campanha e depois trabalha como assessor do Deputado Estadual recém eleito. Posteriormente, nas eleições de 1986, candidata-se à Deputado Estadual, associando sua candidatura às de Lizst Vieira para Deputado Federal e Fernando Gabeira para Governador do Estado do Rio de Janeiro.
No cenário político de 1986, a Plataforma de Herbert Daniel propõe alternativas: fazer da sexualidade e da ecologia problemáticas que coloquem em questão a 'qualidade Da vida' tendo como referências o corpo e o meio ambiente, 'espaços históricos do humano.'
"Toda ação política alternativa deve tentar coordenar as possibilidades de integrar as formas de luta que emergem na sociedade. É preciso estabelecer vínculos entre as lutas pelo direito à posse da terra com as lutas que buscam ecologicamente definir uma nova relação com a Terra. É preciso enlaçar a luta dos operários por melhores condições de trabalho, com a luta dos que não querem que o corpo seja um simples aparelho procriador/reprodutor/produtor. É preciso revelar as ligações entre a violência que assassina trabalhadores rurais e a violência que destrói as vidas de mulheres e travestis."
O slogan da campanha é: "Não há democracia se ela pára na porta da fábrica, no fundo do prato, ou na beira da cama." O discurso que informa os panfletos e a plataforma da campanha marca o lugar do indivíduo como sujeito, resultado de suas ações, mas também das relações com os outros. Sujeito da História e de sua própria história. Por terem criatividade e capacidade de inventividade, os indivíduos que se sabem sujeitos podem intervir no curso da própria vida e na vida social. Antes de mais nada, é a prática social o ponto de partida e o espaço relacional deve possibilitar a expressão das diferenças. Em contraposição à idéia da defesa de uma humanidade abstrata, propõe-se a defesa da diversidade no esforço para vivermos juntos com liberdade e justiça social para todos.
Os reclames pela atenção aos direitos civis ocupam um lugar de extrema importância, inegavelmente pelo cerceamento dos anos de ditadura. Mas, isto não significa dizer que o exercício dos direitos se reduza ao legal, ao contrário, o direito à diferença está ancorado na prática social, que não pode ser mudada apenas pelo formalismo da lei, ainda que esta exerça um papel importante no reconhecimento de novos direitos. Por um lado, romper o silêncio é necessário e a luta simbólica é primordial, por outro, a defesa das diferenças deve dialogar com uma proposta político-social mais ampla e não reproduzir o antagonismo que tende a relegar e reprimir os 'diferentes'.
Em "Somos a maioria", panfleto da campanha, é nítida a crítica à idéia de minoria, que parece aproximar-se da concepção deleuziana, entendida como um devir e um processo, ao mesmo tempo que há um esforço por uma composição, vislumbrando-se um adversário comum.
"Somos quem quer poder trabalhar, morar, ir e vir, sem ter que obedecer aos padrões sexuais oficiais. Somos quem quer namorar sem a ameaça do impudor de quem vem no escuro ver. Somos quem não quer piedade, pois defeito quem tem é quem alija o deficiente físico. Somos quem não quer ser preso e torturado em asilos que são fábricas de alucinados. Somos quem não tolera o desrespeito à humanidade do preso. Somos quem quer fumar um sem a ameaça dos traficantes da violência. Somos quem quer um menor contingente armado de homens nas ruas da cidade, queremos menos guerra civil. (...)"
Tendo por referências as liberdades individuais e a mudança da sociedade, é compreensível que a campanha com Lizst Vieira, em 1986, tenha sido orientada sob eixos de discussões em torno do corpo e do meio ambiente, configurando a proposta de uma política de vida. Há também nitidamente um esforço para não dissociar a relação indivíduo-sociedade. O corpo não está desvinculado da discussão política e quando se diz o corpo, a experiência é harmônica entre o físico e o mental, o racional e o afetivo. O corpo é indivisível e suas experiências são múltiplas. Herbert Daniel está sempre apontando o limiar, o corpo é o intermediário entre o parcial e o geral, e isso se repete de forma mais ampla.
As dificuldades na campanha vão desde o financeiro até o apoio político. Os militantes ou ex-militantes gays não aderem à campanha em peso, como esperado, por ser uma candidatura abertamente gay. Vale dizer que a relação entre Herbert Daniel e o movimento gay sempre foi permeada por divergências. Para Daniel, é necessário fazer da (homos)sexualidade um tema de debate público, mas na sua visão os grupos gays às vezes aprisionam-se a uma identidade que os leva à guetização, o que politicamente não o agrada. Sua questão central são as liberdades individuais e a mudança da sociedade e não a causa gay, ainda que problematize as questões individuais. Considera importante falar na primeira pessoa como se o engajamento em nome próprio, através da exposição de si, tomasse um valor de engajamento coletivo. Na época da campanha, em entrevista à Folha de São Paulo, falou a respeito.
"É importante, para mim, afirmar a minha vivência homossexual exatamente para desestruturar o conceito, para desorganizar uma discriminação e ser capaz, a partir desse ponto, de discutir uma nova ética, que não separe a vida privada da vida pública, que faz do político um representante que não substitui o representado e que seja capaz de discutir a cidadania da forma mais ampla possível. Não faço disso ponto central da minha plataforma. Acho que a sexualidade é uma questão extremamente importante a ser discutida e acredito que os homossexuais que se escondem estão fazendo o jogo de uma opressão, que é uma opressão que não atinge apenas uma minoria dita homossexual, mas atinge a sexualidade de todos, na medida em que limita as possibilidades de cada um aceitar e levar adiante aquilo que são as suas diferenças. É preciso que a democracia garanta que todos possam exercer plenamente suas diferenças."
Em 1986, o cenário político está completamente diferente daquele em que se desdobrou a campanha de Lizst Vieira, em 1982. No que se refere à discussão sobre a homossexualidade, novas questões estão em jogo. Por um lado, o surgimento dos primeiros grupos organizados na luta contra a aids aglutinam inúmeros ex-militantes do movimento gay. Por outro lado, há toda uma mobilização social em torno da expectativa da Assembléia Nacional Constituinte, quando alguns grupos gays empenham-se para incluir a não-discriminação por orientação sexual na atual Constituição Brasileira. Mesmo que não se tenha ganho as eleições, as campanhas possibilitam a introdução de temas considerados até então como restritos à esfera privada ou tidos como menos importantes frente ao que se considera como prioridade na política, como as discussões macroestruturais e/ou econômicas.
Em 1983, Herbert Daniel já havia escrito "A síndrome do preconceito", mas depois de 1987, quando vai trabalhar na Abia e, principalmente, depois de 1989, quando descobre que está soropositivo, passa a escrever mais sobre a pandemia da aids. Ainda que "Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos" seja um romance que focaliza diretamente a questão da aids, a maioria dos seus escritos a respeito são voltados à intervenção política. Suas preocupações tornam-se mais detidas nas políticas sobre aids, escreve inúmeros artigos a respeito e passa a ser o primeiro editor do Boletim Abia.
Em 1989, depois de uma tuberculose ganglionar, Herbert Daniel toma conhecimento de sua soropositividade.
"Recebi a notícia de que estava com Aids de forma mais traumatizante do que a provocada pelo simples fato de me saber doente com tal gravidade. O médico que procurei, numa urgência, me comunicou que eu estava doente, me deu uma receita, me cobrou quarenta mil cruzados e me dispensou do seu gabinete. Tudo isto em quarenta segundos. Foi este o tempo de que dispôs e me deu, para absorver o choque. Enquanto isso, me encarava com uma olímpica indiferença de técnico de laboratório. Eu era apenas uma doença. E, o que é pior, uma doença de homossexual. Estou convencido de que é o preconceito que provoca tamanha desumanidade, associado a uma ignorância completa sobre a pandemia. Há uma sutil violência, gerada pelos preconceitos, que faz crer que um homossexual está sendo castigado por uma culpa que carrega. Não é um doente; é um relapso."
Começa a discutir com amigos, alguns vivendo com aids, sobre a criação de um grupo que defenda os direitos das pessoas vivendo com HIV e aids, ajudando-lhes a romper o silêncio imposto pela 'morte civil.' Em maio de 1989, funda o Grupo Pela Vidda - Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids -, o primeiro grupo brasileiro formado por pessoas vivendo com HIV ou aids. Ainda no mesmo ano, escreve "Vida antes da morte", em edição bilingüe, para ser levado à V Conferência Internacional sobre Aids, em Montreal. Esta Conferência é considerada como o momento de maior expressão dos grupos organizados na luta contra a aids e de maior visibilidade das pessoas soropositivas ou com aids, reforçando o projeto de criação do Grupo Pela Vidda. O discurso de Herbert Daniel traz a especificidade da aids ainda permeada por uma certa utopia revolucionária.
"Por isto, quando vejo o trabalho realizado por esta ampla rede de solidariedade mundial entendo que estamos montando hoje o futuro, estamos fazendo o tempo. As pessoas passam. Sei que muitos, como eu, não teremos tempo de ver a vitória definitiva contra a AIDS. Mas temos o tempo de ver a vitória de hoje. Esta vitória que estamos consolidando aqui."
A associação direta entre aids e homossexualidade, e a aids como uma doença fatal são bastante fortes na época. E como é "…só " pessoalmente" que a gente sofre o problema de todo mundo", a experiência da soropositividade é para Daniel, como fora a da homossexualidade, um veículo para refletir sobre as interseções entre o individual e o coletivo. Daniel funda o Grupo Pela Vidda criando uma proposição pela vida e contra a morte, que nesse momento não está mais carregada de esperança numa nova sociedade, mas da negação do indivíduo.
Como registrado por Défert (1994), até 1989 a pandemia da aids é pensada como infecciosa, rápida e mortal, depois começa-se a trabalhar sob o modelo do câncer que propõe uma cronicidade da patologia seguindo protocolos terapêuticos sucessivos. A visibilidade das pessoas vivendo com HIV ou aids tem uma enorme influência no ritmo das pesquisas médicas, especialmente nos anos de incerteza, e reforça a esperança de vida, pois muitas pessoas depois de terem sido desenganadas continuam vivendo. Muitos dos escritos de Herbert Daniel e sua atuação na luta contra a aids contribuem para superar os preconceitos e ajudar as próprias pessoas soropositivas ou com aids a assumirem sua nova condição. Em "O primeiro AZT a gente nunca esquece" procura desmistificar o uso do AZT, primeiro medicamento associado diretamente à aids, no momento em que fazia uso do mesmo.
Em geral, nos escritos de Herbert Daniel estão presentes a clandestinização e a solidão. Sentimentos e condições referidos pela homossexualidade e pela experiência política. Quando começa a escrever sobre a aids é como se estes sentimentos se atualizassem, aproximando-se do que Pollak, ao analisar a experiência da doença dos homossexuais com aids, aponta como principais características: "...o segredo e o silêncio, e na medida do possível a manutenção de uma continuidade de vida: tudo muda na visão que o doente tem de si mesmo, mas nada deve mudar na imagem que os outros têm dele." Apesar das alterações no próprio corpo também serem reveladoras e geradoras de rupturas inevitáveis.
Herbert Daniel, devido a sua própria trajetória, problematiza as questões individuais no recente esforço de democratização da sociedade brasileira. Seu discurso nos primeiros Boletins Pela Vidda reforça o intuito de relacionar interesses individuais e sociais. Para Daniel é importante falar na primeira pessoa, porque através da exposição de si as necessidades tradicionalmente consideradas privadas podem ser tomadas como o cerne da questão, contribuindo para a ampliação dos espaços públicos. A superação dos preconceitos que geram solidão, silêncio e segredo, as liberdades individuais e os projetos coletivos são vistos como elementos interrelacionados e em conflito. As categorias e os argumentos utilizados nos seus romances e escritos políticos reúnem suas inquietações pessoais, a herança marxista e muito provavelmente as discussões intelectuais que permeavam a Europa no final dos anos 70, quando esteve exilado.
Herbert Daniel morreu aos 45 anos, em 29 de março de 1992.
"Meu nome é Herbert. Este ganhei no registro, que me indicava brasileiro, branco e sexo masculino. Depois, mais tarde, passei a ser conhecido como Daniel. Este ganhei como nome-de-guerra, no final dos anos sessenta, quando participei da luta armada, que me registrava entre uma minoria que queria combater a ditadura com armas, porque tínhamos então certas idéias (nem todas tão certas) de política e liberdade. Vivi anos clandestino no país. Depois da derrota, saí para o exílio, donde voltei em 81. Pensei muito na derrota, principalmente porque vivi anos duplamente clandestino: uma das clandestinidades me registrava numa minoria que parecia afrontar o sexo com que fui registrado. Ser homossexual, o que é isto? Na época da guerrilha, sexo era assunto "pessoal", não era "político". A separação entre pessoal e político, entre público e privado, é uma das bases da ética de toda política conservadora. A esquerda, adotando essa ética conservadora, pensando de uma certa forma o poder, pensou um corpo abstrato, "socialista", onde o sexo era uma tecnologia a serviço da procriação, ou só procriação de um prazer conformado a preconceitos".
Mineiro, Herbert Daniel começa o curso de medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, no final de 1964. A formação na área médica e a leitura crítica sobre a racionalidade médica serão resgatadas no debate que se estabelece com o advento da pandemia da aids. Na mesma universidade, participa do Movimento Estudantil, tendo sido Vice-Presidente do Diretório Central dos Estudantes - DCE - e também escreve peças para o teatro estudantil. Em Belo Horizonte, trabalha como crítico de cinema no rádio. Empolgado depois da leitura do Manifesto Comunista, espera ansiosamente ser recrutado para a luta:
"Opção revolucionária. Mas pra meu azar nenhuma proposta de ação prática me vinha dos militantes que conhecia. Muito ocupados, e poucos eram então, não se ocupavam com meu recrutamento e eu esperava que. Me dizia: merda, não devo ser bom candidato a revolucionário, já que não querem me engajar. Duvidava: vai ver que sou inapto; às vezes, é que sou homossexual e eles não aceitam gente assim. Mas: não dou pinta, sou enrustido, será que desconfiam e… ?"
Ao se envolver cada vez mais com a ação política, depara-se com perguntas que se são 'inquestionáveis' para alguns, são também conflituosas para outros, como: O que deve ser considerado mais ou menos importante como bandeira de luta das Organizações? Quais temas devem ser alvos de preocupação dos revolucionários? Como deve ser e agir um revolucionário? Em que medida as questões individuais interessam à revolução? Em que momento? Herbert Daniel fez a escolha pela revolução através da luta armada. Pode-se dizer que tenha assumido a 'causa' no sentido mais altruísta do termo, disposto a morrer por um mundo melhor ainda que para as próximas gerações. Entretanto, o diálogo entre o visível e o invisível no que se refere à homossexualidade é um questionamento constante na sua vida, gerando reflexões em sintonia com a atuação política.
"Meus problemas pequeno-burgueses me preocupavam, como tantos empecilhos que eu tivesse para poder me tornar um bom revolucionário. Entre eles a sexualidade, mais explicitamente, a homossexualidade. Desde que comecei a militar, senti que tinha uma opção a fazer: ou eu levaria uma vida sexual regular - e transtornada, secreta e absurda, isto é, puramente "pequeno-burguesa", para não dizer "reacionária", ou então faria a revolução. Eu queria fazer a revolução. Conclusão: deveria "esquecer" minha sexualidade".
Em 1967, Herbert Daniel entra na política. Militante da Política Operária - Polop -, Comandos de Libertação Nacional - Colina -, Vanguarda Armada Revolucionária - Var-Palmares - e Vanguarda Popular Revolucionária - VPR -, nesta ordem, vive clandestino durante seis anos, entre 1969 e 1974, sem nunca ter sido preso. A partir do final de janeiro de 1969, inicia sua vida clandestina sob a inspiração de Che Guevara. Opta pela luta armada e faz "sua primeira experiência de guerrilha urbana no início do ano".
Durante a clandestinidade acompanha pelos jornais notícias de torturas e fotos de companheiros mortos e a sua própria foto divulgada como um guerrilheiro procurado pela polícia. Contudo, mesmo a morte é vista como uma bandeira de luta. Nesse sentido, a morte de Che Guevara é para os revolucionários, de certa forma, uma vitória, uma justificativa. "Foi uma morte plena de esperança". Ainda em 1969, depois de ter vindo para o Rio de Janeiro, parte para o Vale do Ribeira, área de treinamento da guerrilha rural, o grande objetivo na época. Em abril de 1970, o Exército cerca o Vale do Ribeira, mas Daniel consegue escapar e volta ao Rio de Janeiro onde participa do sequestro do embaixador da Alemanha. No final do mesmo ano, novo sequestro, dessa vez é o embaixador suíço.
O relato de Herbert Daniel sobre os partidos de esquerda, especialmente a esquerda armada, é bastante duro. Critica-os por se verem como o 'Instrumento' que poderá conduzir as massas, quando na verdade estão distantes delas e só criam expectativas. Afirma que têm "…a idéia messiânica de que a massa não se move sem a direção duma vanguarda. O que é perfeitamente absurdo". Outra crítica refere-se ao fato da organização política ser vista como uma atividade preparatória ao político, gerando "a incompreensão do tempo político, a criação artificial de um "momento de espera". Sob seu ponto de vista, nos partidos não se fala em continuidades, mas sobre a necessidade de 'seguir até o fim.'
No final de 1971, Herbert Daniel conhece Cláudio Mesquita que vem a ser seu companheiro durante vinte anos. Na ocasião, Cláudio o esconde da polícia em sua casa, mas o esconderijo acaba sendo localizado e a partir de então passam a fugir juntos. Em 1974, saem do Brasil pela fronteira argentina, depois vão para a França. O primeiro contato não agrada e resolvem ir para Portugal, onde Daniel trabalha como jornalista numa revista feminina. Em 1976 voltam a Paris, depois da morte num acidente de moto de um companheiro também exilado. Mais seis anos em suspenso, entre 1974 e 1981, dessa vez no exílio.
Paris é para Herbert Daniel uma experiência de rupturas. Ele resolve não fazer um grupo de estudos sobre o marxismo, prática comum na época, mas olhar para si. Neste período, lê muitos romances policiais e de ficção.
"Não me interessava fazer "política" assim. Fechar-se no exílio num círculo de vícios da mistificação não resolveria minhas confusas artimanhas. Estava decidido a encontrar soluções para certos problemas que a coerência me impede de chamar pessoais, mas a prudência me aconselha a não chamar políticos. Sendo, porém, políticos, pessoais e intransferíveis, pensei dar um salto, uma fuga, um corte. Resolvi que precisava me resolver e às minhas dúvidas. O homossexualismo era ainda uma pendência. Comecei - no exílio - a conhecê-lo, e suas regras. Ferozes. O cerco. O círculo. Desde sempre me dava conta duma armadilha. E me dizia: se escapei de uma seita, não foi para cair num gueto."
Herbert Daniel trabalha na mais luxuosa sauna gay de Paris, o que lhe possibilita o contato com um mundo novo repleto de códigos e mensagens desconhecidos. Não consegue se manter por muito tempo nesta sauna, devido à rede de intrigas que percebe entre os empregados, que procuram impressionar os patrões, e pela exploração sofrida por serem majoritariamente imigrantes. Apesar da homossexualidade trazer um fator agregativo, marcado pela identidade ou pelo estigma, as desigualdades de classe aparecem. Os entrecruzamentos entre preconceitos e desigualdades sociais estão sempre presentes para Herbert Daniel. A busca por resolver suas dúvidas o leva ao reconhecimento da homossexualidade e simultaneamente ao estranhamento com o mundo gay e o incômodo com o gueto.
"O gueto homossexual hoje em dia, nos países desenvolvidos, é antes de tudo um conjunto de comércios. Bares, cinemas, restaurantes (pergunto: por que restaurantes especializados? Bichas, a não ser umas às outras, comem diferente?)… Enfim, todas as atrações possíveis do consumo se especializam para homossexuais: da livraria à loja de periquitos, passando pela hóstia consagrada. E tudo aí é mais caro. Mais caro porque "especializado": paga-se a instauração da cidadania homossexual. E a defesa dos interesses desse mercado não deixa de assumir formas políticas curiosas. Passa, sempre, pela forma de "defesa de interesses homossexuais."
Apesar de estar afastado das discussões políticas em Paris, é convidado a discutir sobre questões ligadas às minorias, que passam a ter visibilidade no momento, como a ecologia e a homossexualidade. Assim, aproxima-se da Comissão de Cultura do Comitê Brasil pela Anistia - CBA -, formado por pessoas consideradas mais lights, que propõem um debate a respeito. "Proposta indecorosa" foi o título do panfleto de divulgação do debate sobre "Homossexualidade e Política", encaminhado por esta Comissão, em 1979, em Paris. Há muita polêmica, pois para alguns esta não passa de uma questão "absolutamente secundária". Depois de muita discussão, a proposta é retirada, mas o evento acontece como uma reunião pública na Casa do Brasil, na Cidade Universitária.
É durante o relato desse episódio que Herbert Daniel menciona um outro tipo de exílio, o imposto pelo silêncio: "O silêncio é a forma do discurso duma certa parcela da esquerda sobre a homossexualidade. É uma forma de exilar os homossexuais". O silêncio imposto pela censura, seja a da ditadura, seja a dos preconceitos, interiorizados e propagados nas relações intersubjetivas, pode funcionar como elemento chave nos vários debates que Herbert Daniel provoca. O silêncio é expresso nos seus vários escritos, através das experiências pessoais daqueles que viveram/vivem sob o cenário da ditadura ou da pandemia da aids. Um silêncio marcado por uma imposição externa, no primeiro caso, ou por uma auto-repressão e culpabilização pela homossexualidade e a aids. A ditadura e a aids aparecem como conjunturas históricas, mas a auto-reflexão sobre a homossexualidade atravessa os dois momentos. Ainda que a coerção externa seja mais forte com a ditadura, a violência simbólica está presente e não é menos importante, ao contrário, parece ser o centro da atenção do autor. Nesse sentido, o exílio se confunde com o silêncio.
No período do referido debate, em Paris, Herbert Daniel produz com Cláudio Mesquita alguns fascículos datilografados chamados "Notas Marginais", posteriormente sintetizados e publicados, em 1983, em "Jacarés e Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade." O último capítulo do livro - "A síndrome do preconceito" - é um dos primeiros artigos sobre a aids publicado no Brasil. A partir daí começa a refletir teoricamente sobre a homossexualidade, que é vista como um assunto secundário por muitos, ou sugerida como tema para um possível núcleo gay dentro do partido político. Herbert Daniel discorda, pois considera que o debate não deve ser apenas entre os gays, mas mais amplo. Entendido como um problema mais geral, de cidadania, de respeito às diferenças, um tema de debate público por se tratar de um direito individual.
Em 1979, a anistia possibilita a volta de vários exilados, mas Herbert Daniel ainda não pode voltar ao Brasil. Sua pena só será prescrita em maio de 1981.
"Ah, nem, que não, que não, que não escrevo assim: "foi". Nem vê, num vou comprometer-me em relatórios. Não pode, ainda não pode, que é só 1981 e tem aí seja um general que lê, seja um esseenii que cataloga, um punho que aguarda, que não abriu. Aguardo diante dos portos que tenho fechados, neste resto de exílio que alonga ainda mais uma certa solidão que sempre me pareceu destinação inevitável e temida. Um dos últimos no exílio, já quase nem se fala em anistia - e ela nem houve, estou aqui que não me deixo mentir."
Decide-se a escrever uma carta que acaba restrita ao Congresso do Comitê Brasil pela Anistia e não gera repercussão. Na ocasião, alguns alegam desmobilização, outros falam do seu tom pessoal na carta e ainda, que exilado não está mais na moda. Daniel resolve escrever uma segunda carta, desta vez dirigida à mãe do Henfil e este a publica. Posteriormente, o jornal Lampião de Esquina - jornal gay publicado entre 1979 e 1981 - a publica na íntegra. Na apresentação da carta, o jornal relata um incidente no Congresso do CBA, quando um dos delegados presentes se opôs a leitura da carta enviada por Herbert Daniel por ele ser "simplesmente uma bicha".
Em maio de 1981, conclui o livro "Passagem para o próximo sonho", em Paris, que procura ser um livro menos de memórias e mais de lembranças, como prefere dizer. Através das lembranças traça sua trajetória política e os doze anos vividos entre a clandestinidade e o exílio. O livro é publicado no Brasil em 1982, reunindo as discussões sobre a guerrilha àquelas sobre a homossexualidade.
Enfim, o último exilado retorna ao Brasil em 1981. Chega trazendo discussões sobre cultura, ecologia, minorias e, evidentemente, homossexualidade. O momento de maior visibilidade do Grupo Somos/SP havia passado e o jornal Lampião não existia mais. No Rio de Janeiro, o Grupo Somos/RJ ainda mantinha algumas reuniões. Apesar de Herbert Daniel não ser membro de nenhum grupo gay, sempre manteve o diálogo com os ativistas. Às vezes reunindo-se com pessoas do Somos/RJ na sua própria casa. O lançamento de "Passagem para o próximo sonho" torna-se um acontecimento importante para aglutinar pessoas que transitam na política e no movimento gay. Um outro momento é o processo da campanha política, quando Daniel começa a romper com a herança da guerrilha, investindo na democratização do Estado e mais adiante lançando-se ao parlamento. Na volta do exílio começa a participar do Partido dos Trabalhadores, que, em 1982, lança a candidatura de Lizst Vieira trazendo essas discussões para a política. A amizade entre Lizst Vieira, Herbert Daniel e Cláudio Mesquita data do período do exílio. Herbert Daniel participa ativamente da campanha e depois trabalha como assessor do Deputado Estadual recém eleito. Posteriormente, nas eleições de 1986, candidata-se à Deputado Estadual, associando sua candidatura às de Lizst Vieira para Deputado Federal e Fernando Gabeira para Governador do Estado do Rio de Janeiro.
No cenário político de 1986, a Plataforma de Herbert Daniel propõe alternativas: fazer da sexualidade e da ecologia problemáticas que coloquem em questão a 'qualidade Da vida' tendo como referências o corpo e o meio ambiente, 'espaços históricos do humano.'
"Toda ação política alternativa deve tentar coordenar as possibilidades de integrar as formas de luta que emergem na sociedade. É preciso estabelecer vínculos entre as lutas pelo direito à posse da terra com as lutas que buscam ecologicamente definir uma nova relação com a Terra. É preciso enlaçar a luta dos operários por melhores condições de trabalho, com a luta dos que não querem que o corpo seja um simples aparelho procriador/reprodutor/produtor. É preciso revelar as ligações entre a violência que assassina trabalhadores rurais e a violência que destrói as vidas de mulheres e travestis."
O slogan da campanha é: "Não há democracia se ela pára na porta da fábrica, no fundo do prato, ou na beira da cama." O discurso que informa os panfletos e a plataforma da campanha marca o lugar do indivíduo como sujeito, resultado de suas ações, mas também das relações com os outros. Sujeito da História e de sua própria história. Por terem criatividade e capacidade de inventividade, os indivíduos que se sabem sujeitos podem intervir no curso da própria vida e na vida social. Antes de mais nada, é a prática social o ponto de partida e o espaço relacional deve possibilitar a expressão das diferenças. Em contraposição à idéia da defesa de uma humanidade abstrata, propõe-se a defesa da diversidade no esforço para vivermos juntos com liberdade e justiça social para todos.
Os reclames pela atenção aos direitos civis ocupam um lugar de extrema importância, inegavelmente pelo cerceamento dos anos de ditadura. Mas, isto não significa dizer que o exercício dos direitos se reduza ao legal, ao contrário, o direito à diferença está ancorado na prática social, que não pode ser mudada apenas pelo formalismo da lei, ainda que esta exerça um papel importante no reconhecimento de novos direitos. Por um lado, romper o silêncio é necessário e a luta simbólica é primordial, por outro, a defesa das diferenças deve dialogar com uma proposta político-social mais ampla e não reproduzir o antagonismo que tende a relegar e reprimir os 'diferentes'.
Em "Somos a maioria", panfleto da campanha, é nítida a crítica à idéia de minoria, que parece aproximar-se da concepção deleuziana, entendida como um devir e um processo, ao mesmo tempo que há um esforço por uma composição, vislumbrando-se um adversário comum.
"Somos quem quer poder trabalhar, morar, ir e vir, sem ter que obedecer aos padrões sexuais oficiais. Somos quem quer namorar sem a ameaça do impudor de quem vem no escuro ver. Somos quem não quer piedade, pois defeito quem tem é quem alija o deficiente físico. Somos quem não quer ser preso e torturado em asilos que são fábricas de alucinados. Somos quem não tolera o desrespeito à humanidade do preso. Somos quem quer fumar um sem a ameaça dos traficantes da violência. Somos quem quer um menor contingente armado de homens nas ruas da cidade, queremos menos guerra civil. (...)"
Tendo por referências as liberdades individuais e a mudança da sociedade, é compreensível que a campanha com Lizst Vieira, em 1986, tenha sido orientada sob eixos de discussões em torno do corpo e do meio ambiente, configurando a proposta de uma política de vida. Há também nitidamente um esforço para não dissociar a relação indivíduo-sociedade. O corpo não está desvinculado da discussão política e quando se diz o corpo, a experiência é harmônica entre o físico e o mental, o racional e o afetivo. O corpo é indivisível e suas experiências são múltiplas. Herbert Daniel está sempre apontando o limiar, o corpo é o intermediário entre o parcial e o geral, e isso se repete de forma mais ampla.
As dificuldades na campanha vão desde o financeiro até o apoio político. Os militantes ou ex-militantes gays não aderem à campanha em peso, como esperado, por ser uma candidatura abertamente gay. Vale dizer que a relação entre Herbert Daniel e o movimento gay sempre foi permeada por divergências. Para Daniel, é necessário fazer da (homos)sexualidade um tema de debate público, mas na sua visão os grupos gays às vezes aprisionam-se a uma identidade que os leva à guetização, o que politicamente não o agrada. Sua questão central são as liberdades individuais e a mudança da sociedade e não a causa gay, ainda que problematize as questões individuais. Considera importante falar na primeira pessoa como se o engajamento em nome próprio, através da exposição de si, tomasse um valor de engajamento coletivo. Na época da campanha, em entrevista à Folha de São Paulo, falou a respeito.
"É importante, para mim, afirmar a minha vivência homossexual exatamente para desestruturar o conceito, para desorganizar uma discriminação e ser capaz, a partir desse ponto, de discutir uma nova ética, que não separe a vida privada da vida pública, que faz do político um representante que não substitui o representado e que seja capaz de discutir a cidadania da forma mais ampla possível. Não faço disso ponto central da minha plataforma. Acho que a sexualidade é uma questão extremamente importante a ser discutida e acredito que os homossexuais que se escondem estão fazendo o jogo de uma opressão, que é uma opressão que não atinge apenas uma minoria dita homossexual, mas atinge a sexualidade de todos, na medida em que limita as possibilidades de cada um aceitar e levar adiante aquilo que são as suas diferenças. É preciso que a democracia garanta que todos possam exercer plenamente suas diferenças."
Em 1986, o cenário político está completamente diferente daquele em que se desdobrou a campanha de Lizst Vieira, em 1982. No que se refere à discussão sobre a homossexualidade, novas questões estão em jogo. Por um lado, o surgimento dos primeiros grupos organizados na luta contra a aids aglutinam inúmeros ex-militantes do movimento gay. Por outro lado, há toda uma mobilização social em torno da expectativa da Assembléia Nacional Constituinte, quando alguns grupos gays empenham-se para incluir a não-discriminação por orientação sexual na atual Constituição Brasileira. Mesmo que não se tenha ganho as eleições, as campanhas possibilitam a introdução de temas considerados até então como restritos à esfera privada ou tidos como menos importantes frente ao que se considera como prioridade na política, como as discussões macroestruturais e/ou econômicas.
Em 1983, Herbert Daniel já havia escrito "A síndrome do preconceito", mas depois de 1987, quando vai trabalhar na Abia e, principalmente, depois de 1989, quando descobre que está soropositivo, passa a escrever mais sobre a pandemia da aids. Ainda que "Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos" seja um romance que focaliza diretamente a questão da aids, a maioria dos seus escritos a respeito são voltados à intervenção política. Suas preocupações tornam-se mais detidas nas políticas sobre aids, escreve inúmeros artigos a respeito e passa a ser o primeiro editor do Boletim Abia.
Em 1989, depois de uma tuberculose ganglionar, Herbert Daniel toma conhecimento de sua soropositividade.
"Recebi a notícia de que estava com Aids de forma mais traumatizante do que a provocada pelo simples fato de me saber doente com tal gravidade. O médico que procurei, numa urgência, me comunicou que eu estava doente, me deu uma receita, me cobrou quarenta mil cruzados e me dispensou do seu gabinete. Tudo isto em quarenta segundos. Foi este o tempo de que dispôs e me deu, para absorver o choque. Enquanto isso, me encarava com uma olímpica indiferença de técnico de laboratório. Eu era apenas uma doença. E, o que é pior, uma doença de homossexual. Estou convencido de que é o preconceito que provoca tamanha desumanidade, associado a uma ignorância completa sobre a pandemia. Há uma sutil violência, gerada pelos preconceitos, que faz crer que um homossexual está sendo castigado por uma culpa que carrega. Não é um doente; é um relapso."
Começa a discutir com amigos, alguns vivendo com aids, sobre a criação de um grupo que defenda os direitos das pessoas vivendo com HIV e aids, ajudando-lhes a romper o silêncio imposto pela 'morte civil.' Em maio de 1989, funda o Grupo Pela Vidda - Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids -, o primeiro grupo brasileiro formado por pessoas vivendo com HIV ou aids. Ainda no mesmo ano, escreve "Vida antes da morte", em edição bilingüe, para ser levado à V Conferência Internacional sobre Aids, em Montreal. Esta Conferência é considerada como o momento de maior expressão dos grupos organizados na luta contra a aids e de maior visibilidade das pessoas soropositivas ou com aids, reforçando o projeto de criação do Grupo Pela Vidda. O discurso de Herbert Daniel traz a especificidade da aids ainda permeada por uma certa utopia revolucionária.
"Por isto, quando vejo o trabalho realizado por esta ampla rede de solidariedade mundial entendo que estamos montando hoje o futuro, estamos fazendo o tempo. As pessoas passam. Sei que muitos, como eu, não teremos tempo de ver a vitória definitiva contra a AIDS. Mas temos o tempo de ver a vitória de hoje. Esta vitória que estamos consolidando aqui."
A associação direta entre aids e homossexualidade, e a aids como uma doença fatal são bastante fortes na época. E como é "…só " pessoalmente" que a gente sofre o problema de todo mundo", a experiência da soropositividade é para Daniel, como fora a da homossexualidade, um veículo para refletir sobre as interseções entre o individual e o coletivo. Daniel funda o Grupo Pela Vidda criando uma proposição pela vida e contra a morte, que nesse momento não está mais carregada de esperança numa nova sociedade, mas da negação do indivíduo.
Como registrado por Défert (1994), até 1989 a pandemia da aids é pensada como infecciosa, rápida e mortal, depois começa-se a trabalhar sob o modelo do câncer que propõe uma cronicidade da patologia seguindo protocolos terapêuticos sucessivos. A visibilidade das pessoas vivendo com HIV ou aids tem uma enorme influência no ritmo das pesquisas médicas, especialmente nos anos de incerteza, e reforça a esperança de vida, pois muitas pessoas depois de terem sido desenganadas continuam vivendo. Muitos dos escritos de Herbert Daniel e sua atuação na luta contra a aids contribuem para superar os preconceitos e ajudar as próprias pessoas soropositivas ou com aids a assumirem sua nova condição. Em "O primeiro AZT a gente nunca esquece" procura desmistificar o uso do AZT, primeiro medicamento associado diretamente à aids, no momento em que fazia uso do mesmo.
Em geral, nos escritos de Herbert Daniel estão presentes a clandestinização e a solidão. Sentimentos e condições referidos pela homossexualidade e pela experiência política. Quando começa a escrever sobre a aids é como se estes sentimentos se atualizassem, aproximando-se do que Pollak, ao analisar a experiência da doença dos homossexuais com aids, aponta como principais características: "...o segredo e o silêncio, e na medida do possível a manutenção de uma continuidade de vida: tudo muda na visão que o doente tem de si mesmo, mas nada deve mudar na imagem que os outros têm dele." Apesar das alterações no próprio corpo também serem reveladoras e geradoras de rupturas inevitáveis.
Herbert Daniel, devido a sua própria trajetória, problematiza as questões individuais no recente esforço de democratização da sociedade brasileira. Seu discurso nos primeiros Boletins Pela Vidda reforça o intuito de relacionar interesses individuais e sociais. Para Daniel é importante falar na primeira pessoa, porque através da exposição de si as necessidades tradicionalmente consideradas privadas podem ser tomadas como o cerne da questão, contribuindo para a ampliação dos espaços públicos. A superação dos preconceitos que geram solidão, silêncio e segredo, as liberdades individuais e os projetos coletivos são vistos como elementos interrelacionados e em conflito. As categorias e os argumentos utilizados nos seus romances e escritos políticos reúnem suas inquietações pessoais, a herança marxista e muito provavelmente as discussões intelectuais que permeavam a Europa no final dos anos 70, quando esteve exilado.
Herbert Daniel morreu aos 45 anos, em 29 de março de 1992.